A encadernação japonesa tem seu charme único: costuras aparentes, padrões simétricos e um equilíbrio visual que atrai quem ama papelaria e artesanato. Mas existe um detalhe que costuma passar despercebido por quem está começando — e que pode transformar totalmente o resultado final: a escolha do fio.
Assim como um bordado pode ser valorizado (ou comprometido) pela linha usada, a encadernação japonesa também carrega no fio parte essencial de sua identidade. Ele é mais do que um elemento técnico, é parte da expressão artística.
O tipo de fio influencia diretamente na estética, na durabilidade e até mesmo na experiência de costurar. Um fio muito grosso pode rasgar o papel ao ser puxado. Um fio fraco pode arrebentar com o tempo e comprometer o uso do caderno. Um fio com pouca presença visual pode fazer a costura desaparecer, tirando o charme que ela deveria evidenciar. E aí, todo o seu trabalho perde impacto.
Este guia vai te ajudar a entender os diferentes tipos de fio, suas características, quando usar cada um e como fazer a escolha perfeita para o tipo de encadernação japonesa que você deseja criar. Afinal, cada ponto merece uma linha à sua altura.
A importância do fio na encadernação japonesa
Mais do que unir as folhas, o fio é o protagonista visual da costura japonesa. Ele é a linha condutora — literal e simbolicamente — da estrutura e da beleza do caderno.
Imagine uma pintura feita com pinceladas cuidadosas, mas com tinta de má qualidade. É o que acontece quando o fio não acompanha o cuidado do projeto.
Um bom fio deve:
- Ser resistente, para suportar o manuseio constante (abrir, folhear, carregar).
- Ter certa flexibilidade, para acompanhar os movimentos da costura sem repuxar ou deformar.
- Contribuir com a estética, seja com cor, espessura ou acabamento (brilho, textura, aparência).
- Combinar com o papel, tanto no aspecto visual quanto na estrutura, para evitar rasgos ou perfurações durante a costura.
Conhecendo as características dos principais fios, você poderá tomar decisões mais conscientes, e criar cadernos que encantam não só pela aparência, mas também pela durabilidade e experiência ao usá-los.
Tipos de fios mais usados na encadernação japonesa
1. Linha encerada
Características:
- Bastante resistente e firme.
- Possui acabamento levemente brilhante por conta da cera.
- Feita geralmente de poliéster ou algodão com cera de abelha.
Quando usar:
- Perfeita para iniciantes, pois desliza bem e raramente embaraça.
- Ideal para costuras mais simples, como o Yotsume Toji (ponto com 4 furos) ou Kangxi Toji.
Dica extra:
- Se o seu projeto usa papel mais fino ou delicado, escolha uma linha encerada de espessura menor (até 0,6 mm).
- Para projetos mais rústicos ou decorativos, você pode usar linhas mais grossas (até 1 mm), que dão mais presença visual à costura.
2. Linha de crochê
Características:
- Feita de algodão, com toque macio e aparência fosca.
- Oferecida em diversas espessuras, facilmente encontrada em armarinhos.
Quando usar:
- Boa para pontos com mais impacto visual, como o Asa-no-ha (folha de cânhamo) e o Hishi Toji (diamante).
- Indicado para papéis com gramatura média (90g a 120g), que aguentam bem sua espessura.
Dica extra:
- Linhas nº 6 criam costuras com bastante volume, ótimas para capas artísticas ou efeitos decorativos.
- Linhas nº 10 oferecem leveza e sofisticação, ideais para projetos mais delicados.
3. Linha de bordado (mouliné)
Características:
- Composta por 6 filamentos que podem ser separados.
- Levemente brilhante, sedosa e disponível em uma vasta cartela de cores.
Quando usar:
- Ideal para cadernos pequenos, detalhes finos e combinações de cores criativas.
- Excelente para costuras com muitos cruzamentos, onde fios mais grossos podem acumular volume.
Dica extra:
- Use o fio completo para costuras mais marcadas.
- Separe 2 a 3 fios para uma costura mais discreta e leve.
4. Linha de nylon ou poliéster resistente
Características:
- Extremamente forte e durável.
- Pode ser fosca ou brilhante.
- Não absorve umidade e resiste bem ao tempo.
Quando usar:
- Para cadernos com muitas folhas, capas duras ou projetos que terão uso constante (como diários, álbuns ou sketchbooks).
- Ideal para encadernações vendidas ou profissionais.
Dica extra:
- Cuidado ao puxar: o nylon é tão firme que, se usado com papel fino, pode rasgar ou “serrar” as bordas dos furos. Testar antes evita frustrações.
5. Fio rústico (sisal, juta, linho)
Características:
- Aparência natural, textura mais áspera.
- Ideal para dar um toque artesanal, boho ou vintage ao projeto.
Quando usar:
- Em projetos decorativos ou temáticos, onde a estética rústica combina com o conceito (por exemplo: álbuns de viagem, lembranças, temas naturais).
Dica extra:
- Amoleça o fio com um pouco de cera ou amaciante antes da costura para evitar que ele desfaça ou arranhe o papel.
- É menos flexível, então costure com mais paciência e cuidado.
Como combinar o fio com o estilo da costura
A escolha do fio também depende do tipo de ponto e do objetivo do caderno. Veja a tabela abaixo para te ajudar:
Tipo de Ponto | Fio Ideal | Observações |
Yotsume Toji | Linha encerada ou crochê fina | Visual limpo e boa fluidez na costura. |
Asa-no-ha | Linha de bordado ou crochê média | Destaque para cruzamentos delicados. |
Hishi Toji | Linha de crochê grossa ou juta | Costura impactante e cheia de personalidade. |
Kangxi Toji | Linha de nylon resistente | Sustenta bem grandes volumes de páginas. |
Kikko Toji | Linha de bordado ou encerada | Equilíbrio entre força e delicadeza. |
Teste antes de costurar: o segredo da confiança
Mesmo com todas as dicas, testar é fundamental. Cada combinação de papel, capa e fio vai se comportar de maneira única.
- Pegue um retalho do papel que você vai usar.
- Teste a linha com a agulha real que será usada.
- Verifique se ela desliza bem, se não repuxa o papel e se o visual da costura te agrada.
- Ajuste a tensão do ponto: ele deve manter o papel firme, mas permitir que o caderno se abra com suavidade.
Essa pequena etapa de teste evita erros maiores e te dá mais confiança para costurar o projeto final.
O fio certo valoriza o que você cria
Cada ponto que você faz carrega sua intenção, seu cuidado e sua criatividade. E a escolha do fio é o detalhe que traduz tudo isso de forma visível e tangível.
Ao selecionar a linha certa, você transforma a costura em um elemento de destaque, não só técnico, mas também estético. Você traz força ao seu caderno. Você dá voz ao seu estilo. Você costura com significado.
Mais do que seguir regras, permita-se experimentar:
- Misture texturas.
- Brinque com cores.
- Sinta a linha entre os dedos.
- Crie algo que traduza seu olhar artístico.
No fim das contas, não é só sobre encadernar, é sobre dar vida ao que só existe porque você decidiu fazer com as próprias mãos.