A encadernação japonesa é uma técnica milenar que une beleza e funcionalidade de forma encantadora. Seus traços delicados, pontos visíveis e possibilidades infinitas fazem dela uma escolha popular para cadernos artesanais, bullet journals, diários e sketchbooks. Mas quem está começando pode se deparar com alguns desafios que comprometem o resultado final e até desanimam.
A boa notícia é que a maioria desses erros são fáceis de identificar e corrigir. Com atenção a alguns detalhes e prática constante, você pode evitar frustrações e elevar a qualidade dos seus cadernos desde o início.
A seguir, você vai descobrir os 7 erros mais comuns cometidos por quem pratica encadernação japonesa e, mais importante, como evitá-los com soluções simples e práticas.
1. Escolher o papel errado para o miolo
O erro:
É muito comum que iniciantes usem o que têm à mão: folhas muito finas, como o sulfite padrão de 75g/m², ou até materiais excessivamente espessos, como o papel cartão. A escolha do papel define a experiência de costura e o manuseio do caderno final.
Por que isso é um problema:
Papéis finos rasgam facilmente ao serem perfurados e costurados, principalmente se a linha for muito tensionada. Já papéis muito grossos tornam a costura desconfortável e dificultam o fechamento plano do caderno, prejudicando tanto a estética quanto o uso no dia a dia.
Como evitar:
Prefira papéis com gramatura entre 90g e 120g/m². Eles oferecem o equilíbrio ideal entre resistência e maleabilidade. Se o caderno for destinado à escrita com canetas que transferem tinta (como nanquim ou marcadores), escolha papéis mais absorventes, como:
- Pólen Soft: ótima textura e absorção, sem ser áspero;
- Offset de alta qualidade: boa resistência, ideal para impressões e escrita;
- Papel reciclado: excelente para projetos sustentáveis e com toque artesanal.
O papel ideal valoriza a costura e garante um caderno funcional e agradável de manusear.
2. Furos desalinhados na lombada
O erro:
A base visual da encadernação japonesa é a costura aparente na lombada. Se os furos estiverem desalinhados, mesmo um ponto bem executado parecerá descuidado.
Por que isso acontece:
Falta de medição cuidadosa, ausência de linha-guia ou o uso de régua flexível demais. Outro fator crítico: não prender as folhas corretamente antes de perfurar.
Como evitar:
- Use uma régua metálica (evita deformações) e um lápis de ponta fina para marcar com precisão.
- Trace uma linha paralela à borda, geralmente a 1,5 cm da extremidade esquerda.
- Marque os pontos de furo com espaçamento exato, de acordo com o padrão que você vai seguir.
- Prenda firmemente todo o bloco (folhas + capas) com prendedores ou clipes robustos antes de furar.
Lembre-se: a simetria dos furos dita a elegância do seu caderno. Um simples desalinhamento pode tirar o charme de uma peça inteira.
3. Usar a linha errada (ou aplicar tensão inadequada)
O erro:
Utilizar uma linha inadequada ou costurar com tensão irregular pode resultar em um caderno frouxo ou com lombada danificada.
Por que isso importa:
- Linhas frágeis (como linha de costura comum) podem arrebentar com o tempo;
- Linhas muito grossas dificultam a passagem pelo papel e deixam um aspecto grosseiro;
- Tensão excessiva rasga o papel. Tensão frouxa compromete a firmeza da encadernação.
Como evitar:
- Prefira linha encerada, linha de bordado (tipo mouliné) ou linha de crochê fina, sempre de boa qualidade.
- Mantenha a tensão constante durante toda a costura. A linha deve estar firme, mas não esticada ao ponto de deformar a estrutura.
- Treine antes: faça testes rápidos em papel avulso para sentir o comportamento da linha com o tipo de papel escolhido.
A tensão correta dá personalidade à costura forte, limpa e segura.
4. Não reforçar bem as capas
O erro:
Ignorar a importância da estrutura da capa ou utilizar materiais frágeis (como papel decorativo direto sobre o miolo) reduz drasticamente a durabilidade do caderno.
O que pode acontecer:
Capas que entortam, enrugam, descolam ou simplesmente não protegem o miolo. O resultado é um caderno que perde o valor estético e funcional com pouco uso.
Como evitar:
- Use papelão cinza, papel Paraná ou qualquer suporte firme com espessura média (1,5mm é o ideal para cadernos pequenos).
- Encape com papel decorativo, kraft, tecido, papel vegetal ou reciclado, sempre aplicando bem com cola uniforme.
- Finalize com uma camada protetora (verniz spray fosco, termolaminação ou cola diluída em água) para proteger de umidade e poeira.
Uma capa bem feita é como uma moldura para uma obra de arte: realça o conteúdo e preserva por muito mais tempo.
5. Ignorar o sentido e a lógica da costura
O erro:
Começar a costura de forma aleatória, no sentido errado ou sem respeitar a ordem lógica dos pontos.
Por que isso afeta o resultado:
Alguns padrões de encadernação têm uma direção específica para que os pontos fiquem simétricos e se sobreponham corretamente. Ignorar essa lógica resulta em lombadas assimétricas e visivelmente mal executadas.
Como evitar:
- Antes de iniciar, desenhe ou visualize o caminho da linha com o dedo ou lápis.
- Assista a vídeos ou leia tutoriais específicos do padrão que você escolheu (como Yotsume Toji, Asa-no-ha, Kikko Toji).
- Faça uma simulação com linha solta, apenas posicionando-a sobre os furos, para entender o movimento correto da agulha.
Na encadernação japonesa, a costura não é só funcional — ela é arte. E toda arte começa com intenção.
6. Usar pouca linha e ficar sem no meio da costura
O erro:
Subestimar o comprimento necessário e perceber, já na metade da costura, que a linha acabou. Emendar no meio prejudica a estética e enfraquece a estrutura.
Como evitar:
A fórmula de segurança é:
- Altura do caderno × número de furos × 2, somado a 20% de folga.
- Meça com generosidade. Se sobrar, você corta. Se faltar, o prejuízo é maior.
Dica: sempre use uma única linha contínua, sem emendas. Isso evita nós desnecessários e garante mais firmeza.
7. Não revisar a estrutura antes de costurar
O erro:
Começar a costura com folhas fora de ordem, capas invertidas ou furos desalinhados. Só se percebe o erro quando já está quase finalizando… e aí, desfazer tudo dá trabalho.
Quais os riscos:
- Folhas do avesso;
- Capas trocadas (frente e verso);
- Costura que passa no lugar errado.
Como evitar:
Antes de passar a agulha pelo primeiro furo:
- Revise visualmente todo o caderno;
- Cheque a ordem das folhas;
- Confirme o alinhamento dos furos;
- Verifique frente e verso da capa.
Faça uma “costura seca”: sem agulha, apenas com os dedos ou a linha solta, simule o trajeto da costura. Esse ensaio rápido pode evitar um retrabalho de horas.
Transforme cada erro em aprendizado
Ninguém nasce sabendo. E errar faz parte do processo de se tornar uma artesã confiante e criativa. O segredo está em observar cada etapa com carinho, aprender com as falhas e, principalmente, não desistir.
Com o tempo, esses erros deixam de ser obstáculos e se tornam histórias que você vai contar com orgulho. Você vai olhar para seu primeiro caderno e perceber o quanto evoluiu ponto por ponto.
Seja qual for seu estágio na encadernação japonesa, lembre-se: cada tentativa é uma chance de aperfeiçoar sua arte e deixar sua marca no mundo.